sábado, 29 de diciembre de 2012

A Esposa Virtuosa de Bagé

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Hoje abrimos espaço à Esposa Virtuosa, pela edificante mensagem que nos enviou (Aqui), como faz em todo fim de ano, plena de compreensão e amor:

"Boa noite queridas!!! "NÃO COBREM DE SEUS ESPOSOS AQUILO QUE SÓ DEUS PODE LHES DAR": Geralmente tentamos receber segurança e afirmação de nosso esposo em vez de receber essas coisas de Deus, e depois nos perguntamos porque o nosso esposo não é capaz de resolver os nossos problemas. Pensem nisso!!!"

Forçoso reconhecer que a mensagem parece destinada às 26 mulheres deste Salito que vos fala, pelo que as damas agradecem penhoradamente.

Mariana de Rosário e Jacira de Uruguaiana, em nome de todas, pronunciaram belas palavras sobre a Esposa Virtuosa, para ao final homenageá-la com vivas. Conceição do Cativeiro Dourado ergueu brindes com campari. A haitiana Sibylle, que é chegada num vudu, prometeu espetar em locais estratégicos quem quer que venha incomodar a essa elevada alma.

A inimitável portuguesa Carminda, psicóloga e professora de línguas, inaugurando a lingerie roxa que ganhou de Natal, com seus olhos argutos leu e releu a mensagem, para ao final observar, calmamente, que a Virtuosa pode ter alguma obsessão, em sonhos, por formas pontiagudas, talvez por gemidos e gritos, devido ao pontão de exclamação grande e bem duro, e este bem duro provocou risos lascivos nas parceiras, com aquele pingo na ponta, e que os prefere, ao ponto e ao pingo, em início de frase em espanhol (alô, moscovitas e bakunenses: para cima), mas são apenas fálicas conjecturas, esse pessoal de psicologia não bate muito bem, parecem com os loucos do botequim, com a ressalva de que isso de loucos é como os chamamos nosotros, os plebeus de vistas curtas e orelhas longas, ao toparmos com espíritos despreendidos de frívolos sentimentos terrenos, esses doidos que, no fundo de eu, desconfio enxergarem longe, como dizia o Freire, o psiquiatra anarquista, amado escritor, amigo que caiu fora em 2008: sem tesão não há solução.

Bem, após uma década de recados de pontudos incentivos, chegou o dia (quem mandou Salito bobão contar às suas mulheres): a nobre missivista despertou tanto interesse na comunidade desta palafita, mas tanto, que decidimos investigar a sua vida. Este "decidimos" significa que elas decidiram, eu obedeço, encrenca com 26 não mesmo.

O rastreamento da mensagem nos levou à (a crase vai por instinto) cidade de Bagé (RS). Para lá se deslocaram os detetives, todos gentis guaranys, bem armados, de automáticas e cultura, bem entendido, Salito é espada e não anda medindo os dedos dos seus companheiros, aqui ninguém manda salvo pelos mundo vivido, e nessa parte, modéstia à parte... Pronto, o chefe desta bagunça sou eu.

Eles não são como os artistinhas dos filminhos do invasor, para iludir analfas, é sem trucagem nem dublês: os gestos do oponente, o jeito de se mover, o esgar do rosto, os olhos, decidem se leva um abraço ou um tiro. Palavras são inúteis, só podem piorar.

Foi fácil descobrir o seu nome, que não declinaremos devido ao seu evidente desejo de anonimato, porém adiantamos que é pomposo, tipo Madame de Pompadour, posto que evita o título, cassado no Brasil, de marquesa.

Vamos chamá-la de Anita G., para não ficar sem nome, e pelo recuerdo da heroína Anita Garibaldi, que as mentes de má índole mentem que tapou de chifres a cabeça de um humilde e desarmado sapateiro, o que seria prova inequívoca de que as mulheres gostavam, à época, de ricos mercenários, chamados de violentos assassinos pelos pobretões ciumentos da sua riqueza.

Ainda que essa torpe calúnia seja difundida por maus historiadores, estes admitem que tudo está mudado, como prova a dignidade da culta viscondessa do Brasil, a senhora Andressa Cachoeira Tourinho, e nossos programas de televisão de pedros biais, gugus, faustões, ratinhos e eikes batistos do pápi. E nossos governos pedem ao povinho que entregue as poucas armas, enquanto os homens sérios da nação as tem estrangeiras. Isso é que é governo de gente séria. Homens sérios.

Ã..., onde andava?, ah, prosseguindo: mesmo com parcas informações, hoje Anita G. não ficará sem pai nem mãe. Ah, sobre Bagé, saibam, ó Anita e povo bageense, que mesmo sem nunca termos aí pisado, amamos essa cidade. Recordamos até que, por alguns minutos, fomos amigos do peito do pajé Telmo de Lima Freitas (AQUI), hoje com 80 anos bem vividos.

Iremos atualizando este pequeno texto à (idem, instinto, agora fraco) medida que os dados forem chegando, pois hoje recebemos uma ninharia de informações, todas sobre o seu - dela, né - impecável esposo.

Segundo nossos investigadores, a Esposa Virtuosa vem a ser viúva de um marquês, este descendente de Juan Bu Lavalleja e Pierre Xo Armour, que, digamos, cruzaram com umas alemoas que chegaram falando espanhol e francês vindas não se sabe exatamente de onde, não obstante os cochichos da ralé, sugerindo que uma foi importada da Guiana francesa e outra da Argentina, onde labutavam em ambientes de cortinas carmim.

Na origem, da Alemanha, supõe-se, a julgar pelos "ich" e "geld" que volta e meia deixavam escapar, e pela frase tantas vezes repetida pelo Sr. Bruno Contralouco, ao constatar a predominância ou grande número de indivíduos da mesma raça, mesmo que de japoneses: “Nunca vi tanto alemão como na Alemanha”.

Mariana de Rosário do Sul, pálida, avermelhou seus lindos olhos castanhos ao ouvir um dos sobrenomes, o Armour, lembrou-se de um inglês Swift, que teria estuprado uma sua tia-avó. Amparei-a dizendo educadamente esquece, meu amor, já morreu, esse filho da puta, calma. Morreu mas deixou um monte de descendentes, quero que eles morram "temem", respondeu já choramingando.

Contornei, eu, hein, conheço as minhas changas, passei as mãos nos seus longos cabelos, que vão até a sambiqueira, dizendo: A gente não deve, e não é justo, Mariana querida, culpar os filhos pelos crimes dos pais. Ela empacou afirmando que eles não tinham mudado, os Swift, e desatou em pontos, digo, prantos de exclamação.

Puta que me pariu. As companheiras acorreram todas, abraçaram, fizeram chá de cidreira, e nada, continuava louca. Então mandei todo mundo calar a boca. Silêncio. Cedi, para contemporizar, prometendo matarmos alguns, quando aparecessem por aqui. 

Num fiozinho de voz chorado me respondeu, afastando timidamente os cabelos da frente dos seus olhos vermelhos, olhando com miúda esperança para o meu lado, beicinho tremendo: "Alguns não, todos...".

Sei. Entendo. Matar a todos, só isso. Quanta indulgência da índia da Serra do Caverá, deve ser o espírito natalino.

É sempre assim, a gente dá o dedo e querem o braço, mas concordei: certo, tá bom, vou matar a todos. Snif, promete? Prometo. Jura? Juro. Ufa. Acalmei-a. Tomara que não me apareçam. 

Depois, o ambiente novamente alegre, música no ar, fiquei com aquilo: ver um amor chorar me deu uma coceira no polegar e no indicador, e pensei nos ferros. Ela não é china de rua, salvei-lhe a vida muito novinha, numa desgraça que é melhor não contar. Tomara Deus que eles me apareçam. Por via das dúvidas, vou descobrir por onde andam. Levantei o telefone.



Bueno, ã, voltando: as germânicas se banhavam solitas no rio Camaquã quando foram, digamos, interceptadas pelos nobres, que, diga-se, eram fãs de carteirinha de outro marquês, o de Sade. Eles surgiram na curva do rio, pretendiam adquirir terras na região e o percorriam a bordo de uma pequena embarcação, em busca de locais aprazíveis. As alemoas ficaram doidinhas para entrar na piroga, o que ficou para depois. Cada um pegou uma e se enfiaram no meio do mato, à procura de morangos silvestres maduros.

Neste ponto recebemos sinais de fumaça de Palmeira das Missões, era o Itiberê Fagundes dos Santos, sugerindo que as tiangas queriam bater bagos no meio do mato. Hummm... bagos, uvas. Não nos consta que haja vinhedos em Bagé, mas vai saber, pode ser, Berê Branco, que já deve estar tinto de véio.


Voltando. Os frutos da interceptação, imagina-se consensual, não foram bem morangos silvestres, ultrapassaram a ingenuidade das mocinhas do limite com Dom Pedrito, mais ainda a mordacidade da indiada de Bagé, uma vez que no mato as coisas se complicam, ai aquela moita ali, olha o ananás na frente, que grande, madurão, se derramando, vou lamber e chupar antes de comer tudo... e as alemoas eram criativas, depois ainda queriam porque queriam experimentar a piroga no meio do rio. 

Resultado: um menino e uma menina, que um dia também interceptaram-se, de forma assemelhada, procurando borboletas nas clareiras da mata numa ensolarada manhã, ah, outubro, primavera, os vinhedos que não sabemos se existem lá parados, o ventinho sacudindo moitas, ai que borboleta gostosa. Desta última interceptação foi que surgiu o Marquês de Comichão, o ilustre marido da Esposa Virtuosa, agora Anita G. (nada de ponto G, olha o respeito com a dama, é bom alertar aos arriados do Botequim do Terguino Ferro, e sim G ponto). 

O Marquês de Comichão, um sujeito alto e desengonçado, fisionomia de drácula, que herdou dos avós materno e paterno as melhores características de moral e caráter, além da grana, era obviamente, como sói acontecer com os marqueses, podre de rico, porém, diferentemente da maioria dos exploradores do povo, não era cheio daquela pose artificial, prova cabal de egoísmo, brutalidade e ignorância ferradas na alma que nem PhD retira, como vemos todos os dias ao ouvirmos nossos supostos dirigentes da nação, a julgar não pelo que dizem, e sim pelo que fazem.

Ao contrário, era muito dado, atencioso e caritativo. Por essa razão, passava mais tempo na Chácara da Cristina do que em casa, o que chegou a despertar a suspeita, pelos invejosos de Bagé, de que fosse sócio daquele singelo recanto de ninfas desprotegidas, muitas "de menor".

Isto para não falar das suas constantes viagens a Porto Alegre, em seus projetos humanitários na noite da capital. Morreu de congestão, o insigne e atlético benfeitor, no dia em que distraiu-se e meteu-se a praticar, ensinando as cortesãs, severos exercícios físicos, após um lauto jantar na residência da Condessa Carmen, da rua Olavo Bilac. Morreu sem ler o telegrama da Esposa, recebido há dias, que dizia que os empregados não recebiam há meses e que já tinha vendido as jóias para lhes conceder vales-alimentação.

Uma observação desnecessária, mas que se mostra importante ao lembrarmos que entre os trilhões de leitores deste blog (de Bagé duas pessoas acessaram) há aqueles que nunca jogaram cartas até o amanhecer, nem sabem que diabo de cortina carmim é aquela que o espantado falou, se cantar Cada parente, cada amigo era um ladrão, me abandonaram e roubaram o que amei... o sujeito pode pensar esse rock não conheço. Então: o nome Comichão é falso, pombas, pois se déssemos o nome verdadeiro cairia a casa da Anita G. 

E diz-se Comichão de novo pela malvadeza alheia, as más línguas, detestamos entrar nessa parte do mato, pombas, mas é que alguns invejosos de Bagé e cidades vizinhas, sempre eles, os invejosos, sussurravam que o homem tinha coceirinhas num lugar que na época não era apropriado, que era mentalista, mágico, fazia cobra desaparecer, engolia, fazia miséria, tinha recuerdos ao contrário daquele ananás grande, durão, molhado na ponta, daí suas viagens e tal, tudo calúnia, certamente, eta discriminação, e mais claro que isto não podemos ser, sob pena de sermos taxados de... sinceros. Isso dá cadeia. Se inventássemos de dizer que o homem era gremista, aí sim, fusfugaria tudo.

(Olha o direito autoral: O verbo fusfugar é invenção de Camila da Praia, parece fazer e correr, ou só fugir, mas não, é fusfugar e isso diz tudo na doce inocência dos 12 anos da inventora, que um dia se apertou, olhinhos arregalados, para dizer que duas pessoas, João e Maria, estavam sifu lá no quarto e saiu assim, estavam se fusfugando)

Temos que explicar tudo, cansa, ufa. Vamos lá saber se o cara, o Comichão, não o João, que já sabemos que amava a Maria, andava de ré ou se era colorado, até aí os investigadores não foram, mas pelos sinais era gremista com certeza, diz o guarany albino de Palmeira das Missões. Ora, vai te fusfugar, daqui a pouco falará mal da hinchada do Peñarol, e aí não vai dar certo.

Sobre a marquesa Anita G., que é o que no momento nos interessa, o cognome adotado diz tudo: Esposa Virtuosa. Modelo de pudor e castidade.

Em agradecimento aos seus conselhos a palafita lhe dedica uma música antiga que o finado marquês adorava, pedia que a tocassem todas as noites na Chácara da Cristina.

Com um dos parceiros dos devaneios noturnos do marquês, que em suas idas ao Rio de Janeiro ia sempre assisti-lo: o gaúcho de Santana do Livramento, Nelson Gonçalves, na inspirada e inocente composição de Adelino Moreira.

Salito, pessoalmente, isto é, eu, agradeço com fé no amanhã, pois odeio lupanares e trás de moitas, por ter vivido em ambos na tenra idade sem ter para onde correr, as esposas sabem disso, e elas, que já eram pacienciosas comigo, ficaram mais. 
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2 comentarios:

  1. BOM DIA A TODOS!!
    Que 2013 seja o ano de casamentos restaurados, renovação de votos e relacionamentos aperfeiçoados....Que cada esposo e esposa possam priorizar um ao outro, fazer o impossível para o casamento dar certo, convidar Deus para habitar no casamento, manter o romance vivo, valorizar mais as qualidades do que os defeitos, conversar de maneira desarmada, jogar fora a lista de erros do outro, mudar onde há necessidade de mudança, morrer para o passado, não pronunciar a palavra divórcio em vão, eliminar o orgulho/grosseria/egoísmo, buscar a maturidade, sacrificar os desejos egoístas, resistir a rebelião, recusar-se a ceder as artimanhas do inimigo, estar dispostos a estarem "errados" mesmo sabendo que estão certos, abrir mão das contendas, não se deixar levar pelas pequenas coisas que os feriram ou ofenderam, liberar perdão, tirar o foco de si mesmo, possam orar juntos, fazer o que é certo e não decidirem "quem esta certo"...
    "E disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, e serão dois uma só carne." Mateus 19:5

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  2. Saravá!, irmã Virtuosa. Seus amorosos recados me remeteram ao passado de partes do RS, pelo que agradeço. Apareça aqui no rancho, tomar uns mates com as minhas chinocas.
    Salito

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