sábado, 4 de septiembre de 2010

Aos madrugantes de Madre Teresa


Por gentileza, eventual madrugador de noite perdida, ao voltar para casa de porre e desacompanhado pela manhã, avise a Sra. Yeda e ao Sr. Fogaça, se tiver a infelicidade de topar com um deles pedindo votos no Brique da Redenção, que não esperem uma cartinha aqui deste bloguinho. A propósito, se encontrar o Eliseu Padilha, fuja em disparada, segurando os bolsos para evitar que a carteira caia em alta velocidade.

Recomendo umas derradeiras cervejinhas ao chegar ao lar, janelas abertas e disco do Waldir Azevedo no som. Na falta do Waldir, pode ser Elizeth e Jacob do Bandolim, outros chorinhos ou samba bom, e se também estes faltarem, então o amigo não tem discos em casa, tente ligar na Rádio Clube de Canela, FM 88.5, do meu camarada Pedro Dias, em música a melhor do mundo, isolada desde que os pastores destruíram a música da Guaíba, que empatava, abstraída a preponderância dos gêneros. Considere a nossa amizade abalada se colocar no prato pagodaços e sertanojos.

Depois dê uns telefonemas, combinando o churrasco mais tarde com a turma, não há nada melhor que vozes amigas em situações assim, de bebedeira, de volto para casa abatido, apartamento vazio, e de encontrar logo quem pelo caminho. Derruba qualquer um.
E relaxe, estique as pernas no sofá, beba, ouça a música, pense com esperanças, fervor, naquela mulher, a ideal, que nunca aparece mas que um dia vai aparecer, ah, vai, linda, com olhos só para ti.
Esse ritual muitas vezes já me salvou o dia, afinal é sábado, à noite tem mais, e há que se compensar o desgosto do encontro matinal, já experimentei em eleições passadas.
Sei que seria bom para eles (não repito os nomes, não pretendo estragar o "meu" sábado), na base do "falem mal, mas falem de mim" do acorrentado Imperial, afinal estamos na marca de 150.000 acessos (todos os afetos prestigiam repetidas vezes, só pode), vejam o relógio do blog, advirto que marca em milhares, segundo me disse o vinicultor e grande amigo Walter Schumacher, e isso em apenas um mês, e sem fotos nem atrativos, ainda não sei lidar com isso.
Seria bom, mas não vão levar.

Ainda criança aprendi com a minha bugra velha, sabedoria vinda da taba, que a gente só briga, consciente ou inconscientemente, e só de boca - arma é uma desgraça para defesa em último caso - com quem a gente gosta. A variável é se pouco ou muito, mas gosta. Como familiares e amigos, uns mais próximos, outros menos, cada um com seus defeitos, como todos nós filhos de Deus, mas com inegáveis pontos positivos. Gente que, ao nosso ver, sempre tem chances de recuperação por méritos próprios. Gente que não erra por querer errar.
Eu não gosto dessa gente, nunca gostei. Recalque, oba. Elitizinha inculta do bonfa, terra dos drogados. A poesia eles inventaram, felicidade de meia-dúzia de ricos, com professor de música e tal. Era um inferno. E atrapalhavam a gente, chamando a atenção da polícia, se injetando sei lá nas veias ou dando a bunda, bem na hora, a única hora, de poucos guardas, em que podiámos pescar um peixe do lago, às 4 da matina.

Aliás, sobre o assunto de não querer errar, creio que terei de conversar com o José, sei não, eu jurava, e a carioca Doramaria Tavares de Lima me ouviu naquele sábado em que bebemos todo o bar Carpe Diem em Brasília, que ele, sinistro desde menino (sinistro de canhoto, amigos da Patagônia, o contrário de destro, esquerda como eu, nada a ver com vampiro) ia ao menos centro-endireitar aqueles que chamo de nazis - que bobinho eu, como diz a modelito Anahí - mas temo que eles o estejam extrema-nazistando. Depois de deixar entrar a cabeça, bem, meu. azar é no teu.
Que pena, José, em poucos anos serás um morto. Bem, estás podre de rico, e se assim deseja, Saravá. 
Onde andará a Dorucha, escrevendo em jornal, certamente, é boa de pena. Que figuraça, outro dia contarei do suco de laranja que ela tomou com as amigas na Bahia, sem açúcar.

A gente briga sim, por vezes no calor da discussão diz coisas que não quer dizer, mas um dia passa, o mundo lá fora, o sofrimento, a condição humana, reduz a pó as nossas pobres vaidades. Disso entendo um pouco, muito brigaram e brigam comigo, pela extensa lista de mancadas. Sem querer. Eles guardam rancor, talvez pelo medo de que não tivéssemos dito tudo, é defesa maldosa. Eu sempre disse tudo.

Pera...

(...)

O telefone. Gonzalo Matabanquero de lá do Ecuador, depois de me perguntar sobre uma cantante uruguaya, de passagem me disse que fedeu no Rio Grande, um negócio no banco estatal. Estranhei, anos atrás li sobre um estouro que levaria a todos para o xilindró. Creio que equivocou-se, ele entende mal o português, deve ser no Rio Grande do Norte, ou o rolo é nacional. Mas também já houve nacional. Ué.
Toda publicidade estatal é pilhagem explícita, divisão pelo sistema árabe rachid, palavra que todos sabem que significa honesto, bem aplicada no caso, uma divisão honesta do butim: meio a meio. Falei para o Lula em 1988, expliquei como funcionam os esquemas, até nomes dei. O que ele fez? Tornou-se fã dos caras.
No Brasil não é nada, não prendem os pilantras por que não querem, pior os que não são estelionatários declarados, como aquele colombiano, o Augusto Monteblanco, do Instituto Bol Pitón, el Ibopi, dá de mil a zero no baiano ladravaz que o elegeu Lulinha Paz e Amor.
Mas hoje não quero pensar nisso, Gonzalo fica na dele, aqui o sábado está lindo, faremos churrasco, vou tentar aprender com Juanito o assado à moda da terra.

Deixa ver... Ah, tem a convivência: a gente passa a amar até gatos, imagine pessoas com quem se dividiu pão seco em trincheira molhada, inverno gelado. Gatos, esclareço, refiro-me ao animalzinho doméstico, não ao Lula e seus amigos.

Até a distância nos une, saudade da língua. Certa vez, fugindo de Mr. F. Febraban e seus mercenários, encontrei um morador de Horizontina no centro de Cracóvia (na Polônia, para evitar trabalho de pesquisa à rapaziada do Chaco). Nunca tinha visto o cara mais gordo, mas ficamos 15 minutos nos abraçando, depois nos encharcamos de wino proste e nos tornamos amigos para sempre. Grande cara, o Tigran Gdanski. Logo que chegar em Porto Alegre darei um jeito de tomar uma dúzia de pré-sal com ele e Walter Schumacher no antigo Pampulha, hoje buteco O Porto. Mesmo sem divulgar a data do encontro, meus seguranças de arremetida terão de fechar o Beco do Oitavo, a rua André da Rocha, mas o que fazer, com Febraban e Daniel não dá para descuidar. Pensando bem, melhor levar o bar inteiro para o bunker. A ver.

E tem aqueles de quem se gosta mesmo de longe. Podem ter um trapo de vida pessoal, traços de loucura, fobias, não importa. Possuem virtudes que justificam o fato de termos vindo ao mundo. Madre Teresa, Mandela, Muhammad Ali, para ficar só em três na letra eme, sem fobias e loucuras, que eu saiba. Coragem e despreendimento. Se formos lembrar dos admiráveis beberrões, faltará espaço.
Morro de medo de quem não bebe, não transa (lembram da pesquisa sobre os políticos e outros bichos? Pois é...), não isso, não aquilo, não mais aquilo, olhares repreensivos e orelhas de abano do bicho que mal sabe o que faz neste mundo. Interminável sequência de não. A Agnes Gonxha Bojaxhiu (agora entendi a mudança de nome, madre Teresa) era uma dessas que não bebia e não transava, ao que tudo indica, mas parava por aí a negação, consciente de si mesma a ninguém repreendia, só auxiliava, linda, todos conhecem essa história.
Se os políticos lembrassem dela num sábado pela manhã, de coração, uma vez por ano, não teríamos essa mortandade em porta de hospital.

Ah, dizia que meus amigos e eu não somos de sair esbravejando com aquele paraguayo que vai passando no outro lado da rua, não conhecemos o sujeito. A gente não briga com quem não conhece.
E, principalmente, a gente nunca briga com quem sinceramente a gente não gosta, destes dicen que la distancia es el olvido.
Y así pasan los dias.
Me voy a la carnicería del mercado.
Saudades, tchê Valério.
Salito


Foto by Flávio Varricchio: Ao fundo um boêmio que não bebia, o cantor e violonista Valério Fumagali (cantor de rua e de qualquer lugar) no Brique da Redenção, cantando La Barca (Roberto Cantoral). Frequentador assíduo do Pampulha, atual O Porto, da rua André da Rocha com 24 de Maio, acompanhante de noites de boemia, Valério nos deixou em setembro de 2008. Aliás, Roberto Cantoral desde mês passado está en la distancia, pero no en el olvido. Estão lá, não me perguntem onde.

1 comentario:

  1. http://www.youtube.com/watch?v=pDzX_pZZwYA

    Nosso grande barítono cantando La Cumparsita em noite inspirada no Restaurante Porto.

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