domingo, 17 de febrero de 2013

A desgraça do alcoolismo

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Hoje trazemos o breve depoimento de um ex-alcoólatra (modo de dizer, pois não existe ex, existem alcoolistas que não bebem, como insiste o pessoal do AAA), publicado na Folha em 25/jan/2013, hoje objeto de comentários de Suzana Singer, na mesma Folha. 

Saltou à memória que aos 39 anos - idade em que ele abandonou o vício - meus amigos e eu empurrávamos uma rama firme, sai da frente. 

Eu era famoso por deter o recorde de chopes do antigo Bar e Restaurante Pampulha, aqui em Porto Alegre, que havia na esquina da Av. João Pessoa com a Rua André da Rocha (esta rua o célebre Beco do Oitavo): 42, tendo como tira-gosto apenas um pratinho de frango à passarinho, tapado de alho dourado, comido com as mãos. Ali se fez o registro, mas batia o recorde em qualquer bar. Num domingo, numa prainha de Niterói, no Rio, certa vez foram 25 caipirinhas de vodka, mas nesse caso com muitos espetinhos de camarão. 

Era bebum de fim de semana, durante a semana não dava, imagine fazer uma incorporação de empresas atolado de trago. Tendo de trabalhar no dia seguinte, pouquíssimas vezes tomei uma cerveja. Bêbedo só na "profissão" de contista, e assim mesmo no outro dia tinha que refazer, suprimindo besteiras e exageros.

Daí que caí de costas com a história do cara, aliás um conhecido escritor brasileiro, que com seu gesto corajoso certamente contribui para a reflexão dos amantes da marvada. Outro dia um famoso chargista já me deu o que pensar, quando me disse: "Hoje sou bêbedo em seco, nada de trago, em outros tempos creio que deixei o fígado em mesa de bar". Vai como respeitosa advertência à moçada do Botequim do Terguino e a todos nós, que cada um faça lá as suas contas.


HÁ 25 ANOS

Por Ruy Castro



Foi num dia 25 de janeiro, como hoje. Enquanto Alice tirava o carro, abri a geladeira e, tremendo muito, servi-me de quatro copos de vodca - pura, gelada, do freezer. Copos, não doses. Cheios, cada qual tomado de um gole, e que, como sempre, desceram como água. O tremor nas mãos não traía nervosismo. Tremia porque acabara de acordar e estava sem beber havia horas. Ainda não descobrira como beber dormindo.

Acordado, bebia um mínimo de dois litros de vodca por dia, só em casa - o consumo na rua era difícil de calcular. Uma vez por semana, a empregada botava os cadáveres para fora, à espera do garrafeiro. Os vizinhos deviam achar que os moradores daquela casa bebiam muito. Se soubessem que um único morador engolia aquilo tudo, não acreditariam.


Dali a pouco, estávamos na rodovia Raposo Tavares, rumo a Cotia, a 31 km de São Paulo, onde eu então morava. Sabia que, no lugar para onde Alice me levava - uma clínica para dependentes químicos -, não haveria bebida. Os quatro copos teriam de bastar até o fim do dia. Mas, e o dia seguinte? E os 30 dias seguintes? Não tinha ideia, nem me preocupava. Afinal, não vivia dizendo que "bebia porque gostava" e "seria capaz de parar quando quisesse"?


Os primeiros cinco dias foram de horror - o organismo reagindo ao corte súbito do suprimento com tremores pelo corpo inteiro, agitação, insônia, diarreia, taquicardia, suores, possibilidade de delírio. Nas palestras, as vozes dos terapeutas soavam muito longe e o que eles diziam, um mistério. Os colegas de internação, fantasmas sem rosto. Mas, aos poucos, o horror passou e, em menos de duas semanas, foi sendo substituído por uma sensação quase insuportável de lucidez, vigor físico e vontade de viver - como nunca antes. Até hoje.

Enfim, foi hoje, há 25 anos. Mas hoje é apenas mais um dia.





(A imagem Bêbado triste foi pinçada do blog Arteurbe)

3 comentarios:

  1. É muito bom ler textos assim de Luz, Garra, Coragem,Reflexão,Conscientização e Busca de solução (Tratamento) A vida é uma graça mas o alcool uma desgraça.

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  2. Pois é, amigo. Quando é demais, como todos sabemos, até água faz mal.
    Sigamos bebendo uma taça de vinho, o outono se avizinha, depois o inverno. Dá um soninho... Grato pelo recado.
    Salito.

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  3. DEPENDÊNCIA QUÍMICA MAL DO SÉCULO...PODEMOS AJUDAR...www.anjosdoresgate.com

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