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Em julho de 2012, aqui publicamos uma Carta Aberta ao Ministério Público. Segundo o contador do blog, foi lida por... 41 pessoas. Um breve texto aludindo ao mundial interclubes de futebol nos rendeu milhares de acessos, mas, enfim, é do jogo. Entre os leitores, talvez o ministério público, vez que a ele dirigida. Nada de resposta, seguimos na mesma. Lá falávamos de estelionato, entre outras coisas.
Hoje quem fala é o pensador Mauro Santayana, em sua coluna no Jornal do Brasil. Ouçamos.
Este foi um ano, no Brasil e no mundo, contra o
homem. Esta Sexta Feira da Paixão, que lembra a morte de Cristo, deveria ser
consagrada a todos os flagelados, torturados e mortos, sob o signo da ignomínia
na história. Ano a ano, cresce a esperança de paz entre os verdadeiros
cristãos, e ano a ano, essa esperança se desfaz, diante da brutalidade e da
indiferença de uma sociedade devotada ao culto da violência.
Há poucos dias, um jogador de futebol que se
destacara como goleiro de popular clube do Rio, confirmou, no tribunal, que um
comparsa matara uma de suas eventuais amantes, esquartejara o corpo e atirara
as partes a cães famintos. A notícia foi lida com aparente indiferença. Nenhuma
das mais conhecidas personalidades públicas brasileiras manifestou sua
indignação contra crime tão hediondo. Durante o processo, em que se investigava
o desaparecimento da jovem, surgiram informações de sua vida irregular, como
garota de programa e atriz de filmes pornográficos, como se tal comportamento
devesse ser punido com a morte.
O horror a que essa jovem foi submetida, pelo fato
de exigir do pai de seu filho que assumisse a responsabilidade devida, não
espantou ninguém. E a ignomínia do expediente assumido pelos assassinos, de
fazer com que os cães devorassem seus restos, a fim de ocultá-los, tampouco
trouxe indignação a uma sociedade tão preocupada com a sobrevivência de rãs e
lagartos.
Confirma-se a previsão de grandes pensadores do
passado, de que a tecnologia, ao nos oferecer instrumentos mágicos, nos
devolveria à barbárie. Como estamos no Brasil, poucos se espantam (embora em
número bem maior do que ocorreu com a morte da “namorada” do goleiro) com a
escolha do “pastor” Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos
Humanos da Câmara dos Deputados. O estranho religioso, que deveria estar na
cadeia pela ofensa feita à metade da população brasileira, negra e mestiça,
aferra-se ao cargo, com a protérvia de afirmar que só sai dali morto.
Flagrado em vídeo que o mostra em pleno ato de estelionato,
ao exigir de um fiel a senha de seu cartão de crédito, o “pastor” não foi
expelido da Comissão, pela negligência ética e cumplicidade corporativa da
Câmara. Ele e o seu partido, que se intitula “cristão”, são uma blasfêmia e um
insulto ao homem de Nazaré que nos dá a sua mão na difícil travessia da vida.
Se a Câmara guardar um mínimo de ética deve ir além – e cassar o seu mandato.
Vamos ver como agirá nesta segunda feira, que lembra a Ressurreição.
Estamos perdendo a alma, no abismo profundo do egoísmo
– ou, na melhor teologia, no abismo do inferno. Esse é o verdadeiro suicídio da
Humanidade, que poucos percebem. Podemos refletir hoje, à margem das homilias
dos sacerdotes e da bela liturgia da paixão, sobre estes dois tristes episódios
de nosso país e nosso tempo, entre outros: o martírio de uma mulher infeliz,
que sonhou com a segurança e a riqueza para seu filho, e a petulância de um
falso religioso, impiedoso e hipócrita, misógino e racista, que responde a
processo por estelionato no STF, infelizmente eleito por cidadãos de São Paulo
- que se orgulha de ser o mais rico e mais civilizado dos estados brasileiros.
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