jueves, 24 de mayo de 2012

Os meninos do Beco do Oitavo e a riqueza

.
Ontem visitei o Beco do Oitavo. Noite amena neste veranico de maio, dei a sorte de topar com boêmios de três gerações. Alguns com idade para ser meu pai, outros irmãos e os que poderiam ser filhos. É uma alegria ouvir a moçada, são surpreendentes, sempre se aprende muito, daí que os coroas deixam que só eles falem.

Entre os meninos e meninas boêmios e boêmias, temos, como diz João da Noite, "Filosóficos, Linguísticos, Antropológicos, Históricos, Comunicativos, Biológicos, Advocatícios, Sociológicos, Políticos, Geográficos e Psicológicos Soçaites", a maioria em pós-graduação, alguns já no doutorado. Todos "à procura de uma atividade laboral", no dizer do mesmo João da Noite, para não dizer procurando emprego. 

À exceção de Brumi e Ju Betsabé, que arrepiam na quinta dose de gim com laranja, os estudiantes são pra lá de bons de copo. Na curva da meia-noite, quando estavam com a palavra molhada, no ponto em que a verve flui quente, bela e erudita, a conversa escorregou para a riqueza.

Cada um discorreu sobre o fascinante tema sob o ângulo de sua formação. Não um de cada vez, que isso é impossível em quatro mesas unidas no centro de um buteco, com alguns falantes nas mesas do entorno, tendo Lúcio Peregrino a provocar lá da ponta, mas apesar da balbúrdia ouviu-se a opinião de todos que a tinham.

Então - doce vingança - a molecada passou a interrogar os "velhos" sobre o mesmo assunto.

Mr. Hyde, que é "Medicinal", rugiu que "Pra mim a ganância traz um problema mental em sua origem, como disse o Pedrito", remetendo sua fala para a exposição do Pedrito da Psicô. Pedro que um dia será consultor da ONU, homem feito, por mérito sem politicagem, olhar duro para as injustiças, implacável com ministros de lama.

Lúcio Peregrino, o peregrinador de camas de políticas, expert no Kama Sutra, livro que está atualizando, com ar de quem está com preguiça disse que "É punheta mental", saindo pelo mesmo caminho. O Contralouco fez maravilhosa explanação de poucas palavras: "Eu só quero que esses caras se fodam".

Chegaram em João da Noite.

"Esse tema me é muito caro. Direi alguma coisa com a escola das ruas. Não reparem se eu me emociono."

Disse isso já com o semblante carregado, com marcas até então desconhecidas do pessoal, mescla de sofrimento e decepção. O buteco silenciou, em respeitosa atenção.

"Desde menino desconfio de tudo o que é demais. Bastou ler a primeira meia-dúzia de livros para afirmar a estranheza instintiva. O pior veio depois, quando, devido a uma profissão que exerci, tive acesso a documentos sigilosos, oficiais e particulares, aí descortinou-se em sua plenitude o horror que suspeitava. Certa noite chorei muito, e molhado de lágrimas ri com amargor das palavras da velha mãe nos meus oito anos: "Estude, meu filho, estude, sendo honesto e capaz poderá um dia chegar a ministro."

Aqui precisou parar um pouco, de um só trago esvaziou o que restava do seu duplo de uísque.

"Jamais sonhou, a pobre, que para tanto é necessário outros talentos. Passei a ter desprezo ao vil metal e a bens materiais, acho até que exagerei, pois rebusco os bolsos e encontro poucos caraminguás, mas até amanhã tenho bóia garantida, depois vamos ver, está bem assim, houve tempo em que foi muito pior."

Aqui parou e gritou ao portuga que iria pendurar a conta. "É bom ter crédito", disse depois, tentando um sorriso impossível. Eu pensava na minha mãe, mesmíssima esperança, palavras quase idênticas.

"Pessoalmente adquiri a convicção de que a ganância extremada tem razões específicas. Os caras que não trepam, por exemplo, têm aí uma boa razão para dirigir as energias para futilidades com aparência de grandeza, na ânsia de compensar."

Aqui Lúcio atravessou, para desanuviar o ambiente: "Taí, foi o que eu disse: punheta mental, né, Hyde?".

Alguns risinhos abafados. João continuou.

"Acho que é um conjunto de motivos, o medo da vida é outro componente importantíssimo, como referiu o Alex Sociológico. Se o preço da riqueza é esfolar os semelhantes, roubar, mentir - e é esse o preço, então acho mais gostoso andar sem dinheiro. Este assunto é penoso, pois além da criação de cada indivíduo acabaremos por discutir a existência de alma, almas boas e almas rudes. Eu os perdoaria pela fraqueza, aos rudes, não fosse a devastação que promovem, mortes, desgraças e fomes que espalham por tabela. Almas de pobres coitados."

Ameaçou continuar, relutou, mas murmurou um "chega" e deu por encerrada a sua contribuição. Brinquei que ele exagerou na dureza, pois possui um quitinete, mais que a maioria dos brasileiros. Arranquei-lhe um meio riso, prova de que estava afastando os maus pensamentos.

Aí chegou a minha vez. O João havia falado em criação, em almas rudes, então disse-lhes que a fala do João me fez lembrar uma matéria que li do jornalista Hélio Fernandes, irmão mais velho do Millôr. "Meninos, disso vai tratar a minha intervenção, não das motivações, que isso todos abordaram de modo esplêndido. Trata-se da prática, de como se fica podre de rico, para a situação do indivíduo conformar-se à alma". Fiz uma breve apresentação do articulista e contei.


Hélio Fernandes (Rio de Janeiro, 17/10/1920) é um dos grandes no minúsculo universo daqueles que se pode chamar de Jornalista. A bem da verdade, nunca foi fácil ser jornalista, pois com o patrão o negócio funciona na base do dá ou desce, se não dançar a sua música está fora, e o pessoal precisa comer... Salvo por esta maravilha que é a internet, que há de sepultar os jornalões conservadores, isto é, todos os jornalões. As embrutecedoras redes de tevê seguirão dizendo mentiras, mas também terão a sua hora. Quase desvio o assunto, que mania.

Para não nos estendermos muito sobre Hélio Fernandes, que o objetivo aqui é outro, a riqueza, a ambição desmedida, digo que era o dono do jornal Tribuna da Imprensa.

No buteco dei a biografia que recordava no momento. Aqui fiquemos com algumas palavras do Wikipédia:

Jornalista sempre polêmico e com idéias de esquerda, começou a ser perseguido logo após o Golpe Militar de 1964. Foi o redator do manifesto pela Frente Ampla, lançado por Juscelino, Lacerda e João Goulart e chegou a ser candidato a deputado federal pelo MDB, mas teve seus direitos políticos cassados em 1966.

Com a violenta censura à imprensa imposta principalmente com o AI-5 em 1968, foi preso várias vezes, inclusive no DOI-CODI, foi afastado compulsoriamente do Rio de Janeiro e obrigado a passar períodos de exílio interno em Fernando de Noronha ou no Pantanal.

Ao contrário de outros donos de jornal, nunca aceitou a censura e nunca deixou de tentar publicar as notícias do período. A sede do jornal chegou a ser alvo de um atentado a bomba, poucos dias antes do Riocentro, já na época final da ditadura militar, em 1981, mas no dia seguinte o jornal estava nas bancas.

Um dos generais da ditadura, Hugo Abreu, em suas memórias relata:

E a Tribuna da Imprensa, por que é que teve dez anos de censura?
O general: “Ah, bom, porque eu não consegui falar nunca com o jornalista Hélio Fernandes. Eu telefonava e ele mandava dizer que não estava. Uma vez eu telefonei e ele mandou um recado perguntando se eu podia telefonar dentro de cinco anos."

Falei: O seu nome, o talento, aliados à irreverência e ao destemor, bem lembra Millôr, não é? Mal de família. Vejamos o que Hélio Fernandes diz da riqueza, não quanto aos motivos, e sim quanto aos métodos.

E narrei o artigo com minhas palavras. Abaixo vai como o seu Hélio escreveu, com as maiúsculas e os post scriptum, quando estava há poucos dias de completar lúcidos 90 anos, em 2010.

quarta-feira, 08 de setembro de 2010

Eike Batista: “Paguei meu imposto de renda com um cheque de 670 MILHÕES DE REAIS. Deve ser verdade. Mas de onde vem essa fortuna, que segundo ele, é a maior do Brasil? Do pai, o melhor do Brasil?
 
 
Ninguém duvida, as dúvidas estão todas na sua vida, ou melhor, na vida do pai, que montou sua herança, antes mesmo dele nascer. Ninguém tem uma trilha (que gerou o trilhão) de irregularidades tão grande quando Eliezer Batista. E em toda a minha vida profissional, nunca escrevi tanto e tão vastamente sobre irregularidades, prejuízo ao Brasil, ENRIQUECIMENTO COLOSSAL, quanto sobre Eliezer. E logicamente nem uma vez de forma POSITIVA, sempre naturalmente NEGATIVA.

A partir do “Diário de Notícias” (1956/1962) e depois já na “Tribuna da Imprensa”, Eliezer era personagem quase diário.

O roubo das jazidas de manganês do Amapá, assunto exclusivo deste repórter, ninguém participava, Eliezer era tão GENEROSO com os jornalões, como foi depois com o filho. O Brasil era o maior produtor de manganês do mundo. Como era de outros minérios, todos controlados por ele, presidente eterno da Vale.

Eliezer devastou o Amapá, entregou todo o manganês aos americanos, a “preços de banana” (royalties para o presidente dos EUA, Theodore Roosevelt, que inventou essa expressão para identificar os países debaixo do Rio Grande. Isso em 1902).

No Porto de Nova Iorque, os navios que vinham do Brasil com manganês, atracavam lá longe para não provocar comentários. E este repórter dava o número dos navios, os nomes, o total da carga, o miserável preço da venda, EMPOBRECENDO o Brasil, ENRIQUECENDO os “compradores” e o grande VENDEDOR (sem aspas) Eliezer.

Está tudo no arquivo da “Tribuna”, fechada por necessidade de silenciar o jornal que contava tudo. Os jornalões, servos, submissos e subservientes, exaltavam as vendas destruidoras, elogiavam o PROGRESSO DO AMAPÁ, por ordem de ELIEZER e da VALE. Diziam: “O Amapá abre estradas, constrói escolas e hospitais, os pobres estão muito mais atendidos e alimentados”.

Mistificavam a opinião pública, queriam convencer a todos, que EXPLORAR AS RIQUEZAS do então Território, deixando os milhares de pobres habitantes sem comer, sem morar, sem hospital e escola. Tudo transitório, enquanto ESBURACAVAM todas as terras, EXTRAÍAM o manganês e DOAVAM tudo aos trustes. (Como se chamavam, na época).

Gostaria de reproduzir tudo isso, a corrupção praticada pelo pai, beneficiando e enriquecendo ele mesmo e acumulando para o filho bem-aventurado. (Mas como o jornal está fechado, tenho que ESQUECER essas matérias de 40 e 50 anos, mas a-t-u-a-l-i-z-a-d-í-s-s-i-m-a-s. Quem nasce Batista se reproduz na riqueza de outro Batista. Só o manganês não se reproduz, dá apenas uma safra).

Mas como Eliezer foi sempre muito PREVIDENTE, controlou todos os minérios, que deixou para o filho, de “papel passado”, ou então em indicações DEBAIXO DA TERRA. Mas com os mapas atualizados e do conhecimento APENAS DO FILHO, A MAIOR FORTUNA DO BRASIL, ANTES MESMO DE NASCER.

(O Brasil tem quase a totalidade da produção desses minérios, como tinha do manganês, raríssimos. E como tem do NIOBIO, ainda mais raro e IMPRESCINDÍVEL, 98 por cento de tudo o que existe no mundo).

Alternando de pai para filho, afinal onde termina Eliezer e começa o Eike? O pai já completamente identificado, mesmo com presidente, “DONO” da Vale, embora já carregasse como propriedade pessoal, a ICOMI, fundada para concorrer com a própria Vale. Utilizando a ESTATAL para produzir lucros PARTICULARES.
***
PS – O filho Eike nasceu rico e poderoso. Se descuidou, foi preso em casa pela Polícia Federal. Seguiu a receita de Daniel Dantas, “só tenho medo da Polícia, lá em cima, eu resolvo”, resolveu. Ninguém sabe onde está a conclusão do ato de prisão.

PS2 – Para o HOMEM MAIS RICO DO BRASIL SER PRESO, é necessário que a acusação esteja fundamentada. ESTAVA. Mas as providências LÁ DE CIMA, também ESTAVAM.

PS3 – Eike “funda” empresas que provocam notícias e permitem a concessão de favores. Nem é pelo lucro, e sim para exibição.

PS4 – Fora a herança “que meu pai me deixou”, abriu ou comprou restaurantes, hotéis, espalhou através dos amestrados, “estou DESPOLUINDO a Lagoa Rodrigo de Freitas”. Continua a mesma, ninguém conhece a Lagoa como este repórter. Mas as pessoas acreditam na DESPOLUIÇÃO. Ha!Ha!Ha! Não riam, é a tragédia da corrupção.

PS5 – É preciso que alguém obrigue Eike Batista a explicar como se tornou O HOMEM MAIS RICO DO BRASIL. Acho que quem pode fazer isso é a RECEITA FEDERAL.


.


*


"Capa" de ontem:

Do prefeito Fortunati, candidato a reeleição, referindo-se à Manuela namorida, sua adversária no pleito: "O eleitor de Porto Alegre não leva em consideração beleza e juventude. Ele quer saber o compromisso dos candidatos com a cidade". Vai atrás, diz João da Noite. Sarcástico, João arremata: Ele esquece que quem ganhou a eleição passada foi uma musiquinha.

2 comentarios:

  1. Gostei de ler " uma bela cronica" acho que riqueza demais,evita o esforço honesto de ganhar aquilo que serve ou se precisa ... Do que adianta ter fortunas e depois ser chamado de "ladrão","bicheiro" etc etc ? Mais cedo ou mais tarde acontece ... Viva Hélio Fernandes esse é dos grandes ...

    ResponderEliminar
  2. Oba, Maria
    Nada a contra riqueza. É que por trás das grandes riquezas, todas, sempre tem o roubo e/ou a violência. Matam. Para quê tanto? Nem Freud explica, mas deve ser por broxura.
    Besos.
    Sala

    ResponderEliminar